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sexta-feira, 29 de maio de 2015

O Amor de Søren, Friedrich e Arthur



Como me foi solicitado por uma amiga, registrarei no texto a seguir concordâncias e diferenças entre Kierkegaard, Nietzsche e Schopenhauer a partir de sua concepção de Amor e de como se apresenta sua filosofia.  

A abordagem adotada como caminho para minha narrativa se justifica por duas margens: por um lado, o Amor é tema de pesquisa deste que vos escreve e, portanto, digno de ser trazido ao diálogo que este texto empreende; por outro lado, filosofia é precisamente o amor à sabedoria, o que reforça a abordagem do amor e esclarece que é a partir do entendimento que o Amor busca, que se estabelece todo pensamento que busca ser sabedoria – é neste empreendimento que a sabedoria se afirma. 

Apresentarei cada um dos filósofos isoladamente, em ordem cronológica, introduzindo com a biografia e apresentando os principais temas e inspirações em tópicos e costurados com texto. Finalmente, pontuo os temas mencionados ressaltando pontos em comum e distinção de pontos de vista. 

Comecemos por Arthur Schopenhauer, um dos primeiros leitores de textos orientais, como os Upanishads. Como contemporâneo das primeiras traduções para o latim, foi o principal introdutor da filosofia oriental hindu e budista na metafísica europeia. Um bom exemplo deste diálogo está registrado na sua obra prima “O mundo como vontade e representação”. Nascido em Danzig, no dia 22 de fevereiro de 1788 e falecido em Frankfurt, 21 de setembro de 1860, Schopenhauer viveu 72 anos no entendimento que o amor seria uma cilada biológica e que somos perpassados por algo maior que nós, por uma Vontade que representamos individualmente. 

Bebe diretamente da fonte do idealismo transcendental, Kant, afirmando que todo o mundo é representação, um grande fenômeno da vontade noumênica, mas rompe com este no que tange ao alcance da coisa-em-si. Se para Kant o noumeno é impossível de se conhecer, para Schopenhauer, ao tomar consciência de si em nível radical, o homem se vivencia como um ser movido por aspirações e paixões, que constituem a unidade da vontade, compreendida como o princípio norteador da vida humana e que perpassa a todos, não tendo em si individualidade, que se encontra justamente nas representações. O impulso do desejo não se dá de forma consciente: ele, ao contrário, se desdobra desde o inorgânico até o homem, que deseja sua preservação. 

É o neocortex justificando moralmente os impulsos do sistema R, sendo mediado pelo cérebro mediano, onde se encontram as emoções, a estética humana, nosso ânimo. A consciência humana seria uma mera superfície, tendendo a encobrir, ao conferir causalidade a seus atos e ao próprio mundo, a irracionalidade inerente à vontade. Nietzsche dirá anos depois que “consciência é rede” e que o pensamento representa o que há de menor de todo processo mental, antecipando assim toda psicologia. 

Para Schopenhauer, parece que tudo se baseia em aceitar o sofrimento que a vontade traz ao buscar saciar-se com todas as representações, alimentando-se de ilusão, e buscar a cessação do sofrimento superando-se pela arte, pela moral enquanto superação do egoísmo através da compaixão e pela suspensão da vontade de viver, indo radicalmente além da individualidade, sendo a ascese entendida enquanto eudaimonia espiritual – conceitos trazidos do budismo.

Nascido em Søren Kierkegaard é o próximo. E o mais religioso dos três filósofos – o único teólogo. Nascido em Copenhague em 5 de maio de 1813 e falecido na mesma cidade em 11 de novembro de 1855, Kierkegaard, tem sua obra marcada por sua biografia. Como Fernando Pessoa, escreve por pseudônimos. E os coloca para refutar e gerar reflexão no diálogo, tal qual Platão o fez com Sócrates, deixando o leitor responsável por criar seu próprio entendimento, seu próprio Kierkegaard. 

Sobre o Amor, escreve a importante “As obras do Amor”, na qual afirma ser o amor o cumprimento pleno da lei, sendo esta uma multidão inesgotável de prescrições, forçando-nos a focar no que é decisivo: a exigência do Amor - que é dupla, exigência de interioridade, coerência/consistência, e exigência de perseverança/persistência. Interioridade para Kierkegaard consiste em amar a si mesmo sendo amar a Deus. Ou seja, a coerência é uma coerência alinhada a algo transcendente e que leva à superação da ilusão de si que é nossa manifestação no interior da temporalidade da eternidade, o que nos convida a repensar nossa noção de persistência perante a eternidade – ou, o eterno devir, como queiram. 

Tudo isto evidencia como a proximidade da cultura cristã trazida pelo pai influenciou sobremaneira sua filosofia, conhecida como existencialismo cristão – o que o coloca alinhado, mas ao mesmo tempo oposto a Nietzsche e seu proto-existencialismo e a Sartre e o existencialismo francês, ambos de abordagem ateísta.
Vós, soberana do meu coração, guardada na profundeza secreta do meu peito, na plenitude do meu pensamento, ali [...] divindade desconhecida! Ó, posso eu realmente acreditar nas palavras dos poetas, que quando se vê pela primeira vez o objeto do seu amor, imagina já tê-la visto há muito tempo, que todo o amor assim como todo o conhecimento é lembrança, que o amor tem também as suas profecias dentro do indivíduo. —Kierkegaard

Neste escrito motivado pelo amor por sua então noiva, Kierkegaard equipara o amor ao conhecimento sendo ambos lembrança. A plenitude do pensamento claramente é uma divindade desconhecida soberana do coração. Há de se estar entusiasmado, cheio de Deus para se pensar plenamente, pois o amor é a soma do mandamento, como Kierkegaard cita São Paulo, o que remete ao ânimo sublime que expande a razão à moral em Kant. 

Há uma lei como referência, um arquétipo a projetar a razão prática e a representação da lei enquanto um imperativo categórico, mas somente alcançaremos tal dimensão se o ânimo for elevado pelo sublime que gera respeito pela lei e se houver três postulados da razão: Deus, o mundo e a imortalidade da alma. Kierkegaard nem postula Deus, o toma pra si e o assume, mesmo em meio aos questionamentos. O mundo é a representação da ideia do Todo e atende Schopenhauer e Nietzsche se assim o quisermos. É na imortalidade da alma que podemos ler diferenças, já que em Schopenhauer a individualidade é uma ilusão, mas também caminhos de convergência: é a imortalidade da alma que garante em Kant o progresso contínuo. E é nela que também há um caminho para se pensar o eterno retorno.

Para encerrar, matando Deus e solando o espírito, Nietzsche. Nascido em Röcken, 15 de outubro de 1844 e falecido em Weimar, 25 de agosto de 1900, Nietzsche foi um errante. Sua filosofia representava sua mobilidade forçada pela busca por paisagens e climas que favorecessem sua saúde em franca debilitação após servir como voluntário e médico na guerra franco-prussiana. Se o abalo psicológico teve impacto na perda de voz não se pode afirmar, mas de certo é interessante que o proto-existencialista nos chegue fortemente como póstumo: como se a voz dele não fosse audível para a época e ecoasse somente hoje. 

Logo hoje, onde as pessoas o lêem como afirmação do ego, da individualidade, arvorando-se super-homens, quando na verdade ele propõe o além homem, o indivíduo que em si foi além do bem e do mal, superou-se e ao nada e, livre do ego e do não-ego, individuado poder-se-ia afirmar, afirma-se enquanto a sua vontade. Eis uma humanidade forte, de indivíduos que agregam valor com sua existência. Sua voz emerge tal qual o ego emerge [do] (in)consciente e se busca compreender, não é dado – é para heróis da tragédia, não para a mediocridade humana presente no drama das vítimas de si mesmo ou na comédia dos cheios de si. 

Em sua concepção de Amor Fati, a aceitação do destino para neste afirmar-se, Nietzsche introduz o conceito de eterno retorno, que em uma leitura particular se torna um operador lógico que conscientiza o querer para afirmar-se no instante: essa vida tornará a se repetir sempre e mais uma vez, portanto, me questiono se quero mesmo este momento, como ele é e como estou me exercendo. Esta reflexão leva a um poder de criação e afirmação de seus próprios valores, superando o niilismo, o nada que fica após a superação do dualismo do bem e do mal. Nietzsche nasce tal qual uma tragédia e tem seu crepúsculo com os ídolos que ele mesmo ajudou a matar, só para afirmar que Ecce Homo (eis o homem) capaz de amar seu destino.

Após analisar estes três autores, reforço meu entendimento de que precisamos aprender a amar, pois todo o restante nos será dado e fluirá pelo respeito na troca com o todo que nos cerca. Talvez falte-nos apenas, como diria Schiller, uma educação estética da humanidade, tema que perpassa a todos os três autores. A arte em Schopenhauer é uma bela representação que aproxima a vontade. Em Kierkegaard, a lei é o esboço do Amor, que a incorpora. Em Nietzsche, a arte transfigura a desordem do mundo em beleza e faz aceitável tudo aquilo que há de problemático e terrível na vida, é liberdade plena de afirmar sua vontade e criar seu valor. 

E quem sabe então, descobriremos que o sujeito racional kantiano é mais do que alcançam os entendimentos moralistas – e seus detratores – até então. Com uma vontade que é representada a partir de um imperativo que se dá, portanto, se cria enquanto valor a ser universalizado, baseia-se em um modelo, uma lei, que também se imagina e que em Kant está inscrita nas profundezas do coração da qual emana a intenção e, portanto, toda hierarquia do pensamento e que é impulsionada pelo ânimo sublime que (e)leva a razão à lei. 

Com esta leitura invertida de um Kant do devir, da passagem do puro para o prático e destes para o empírico-político, que estrutura criticamente a razão e a prática da razão para legar ao belo e ao sublime a faculdade do juízo, consegue-se ler a vontade e sua representação no mundo de Arthur, a relação amor-lei, o esboço de Soren e a afirmação da vontade enquanto poder da existência do Friedrich. Uma filosofia onde o sublime da lei, divina ou racional, cria uma moral que o belo que emerge da vontade busca afirmar. 

Enquanto a obra de Kierkegaard foca na prioridade da realidade humana concreta em relação ao pensamento abstrato, dando ênfase à importância da escolha e compromisso pessoal, na vertente psicológica explora as emoções e sentimentos dos indivíduos quando confrontados com as escolhas que a vida oferece. Schopenhauer crê na necessidade da aceitação enquanto entrega para superação do sofrimento. Nietzsche propõe a aceitação enquanto possibilidade de afirmação de seus valores, superando-se enquanto vontade, apropriando-se desta sem julgá-la boa ou má; no subtítulo de seu último texto publicado, afirma-se psicólogo. 

Cronologicamente, Arthur apresenta o amor enquanto um artefato biológico, um dispositivo de captura; Kierkegaard como um modelo divino de conhecimento, linguagem e estrutura de conexão e Nietzsche ora como armadilha para o conhecimento – ver as coisas como não são quando se está amando – ora como possibilidade para se criar seu valor na afirmação do devir.

Toda sabedoria parece basear-se portanto em esclarecer o Amor, pois o Amor ama a sabedoria por esta lhe fazer mais potente. E esta faz mais potente, porque se quer por inteiro e se afirma na sua vontade. 

E para esclarecer o Amor, deve-se perguntar: Que posso saber sobre este Amor? Que devo fazer para respeitar as partes e o acordo? Que me é dado esperar se eu amar e respeitar individual e coletivamente? O que eu sou e o que torno a humanidade ao agir desta maneira? Que valores represento? Quem/O que se afirma quando represento estes valores?

Múltiplas abordagens, uma questão: o ser e suas relações – para além da razão e das emoções.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Da brevidade e da urgência do Amor

Da brevidade

Muito se sabe que Amor alimenta Amor e que este ciclo é autossustentável e eterno enquanto dura esta retroalimentação, ou seja, depende de empenho, foco e comunhão: o justo equilíbrio entre as partes (o Eu, o Outro e o Todo) e suas partes (corpo, fala e mente de cada terço envolvido).

O Tempo de duração depende do espaço concedido e é harmonizado pelo conhecimento adquirido e aplicado com sabedoria.

Da urgência

Muitas vezes capturados pela Força Schopenhaueriana, tendemos a nos aprisionar na ilusão, reféns da esperança e do medo, tornando a realização de um lampejo erótico uma obsessão em constante devir, aprisionando-nos no terço erótico do Amor, sem dar espaço para o Amor Ágape e o Amor Philia completarem a força do Amor fati.

Aqui se apresenta a importância da canalização do impulso de Eros, vital para nossa existência, mas fatal para nossa evolução consciente - tão fundamental quanto se ter um cavalo selvagem dentro de si é saber domá-lo. E não ser domado.

Amor pleno é quando tornamo-nos unos com o nosso cavalo selvagem interior, sem distinção, sem julgamento, sem submissão; apenas a missão da evolução sendo realizada a cada ato.

Na eternidade que urge, canalizando a brevidade da urgência,

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Amor ímã

O campo magnético só existe pela relação entre ímã e imantado; tal qual o Amor que se constrói entre Eros e Erastes.

N|S --> <-- N|S

N|S <-- --> S|N

A atração magnética é a armadilha da FS (Força Schopenhaueriana); atraimo-nos pela facilidade da completude do suposto oposto, identificando como similar por traços do desejo mais instintivo e sem direção consciente, apenas procriativa – é o estímulo genético buscando perpetuação e equilíbrio. É a frágil união do Eu e do Outro que não passa pelo Nós.

Todavia, evoluimos, refinamos e hoje em dia vivemos mais que nossos ancestrais – com hábitos menos coletivos no que tange a educação da cria; há um sentimento de posse reinante que nosso refinamento apenas inflou – ao invés de combater.

O fato de vivermos mais nos leva ao conflito da atração ‘FS’ não sustentar a união posto que não sustendado no padrão da rede: mínimo de três pontos.

Às vezes os filhos fazem este papel, criando uma carga pesada demais para todos, pois isto é papel para a metafísica e seus valores, não pare entes.

Não nos equiparemos à força invisível e união tripartida do Amor. Somos um terço em busca da completude que reside paradoxalmente em cada um de nós.

Por isto, a importância de se conectar ao outro através de valores coletivos – quanto mais elevados, mais estável a união será.

Contudo, se houver somente o direcionamento dos valores, tende-se à união compassiva, na qual pode faltar um pouco de saciamento do impulso instintivo.

Amor maduro é o tênue equilíbrio que mescla e harmoniza estas duas potências.

Na homeostase do Amor,

sábado, 25 de julho de 2009

Armadilhas do Amor - II

Na pirâmide do Amor do secreto caminho evolutivo há três fluxos cíclicos que servem para nos nutrir e impulsionar rumo à próxima etapa do caminho. Eles se encontram em cada um dos vértices e até se completar todo o primeiro percurso, são extremamente perigosos.

No ciclo de Eros, a força cíclica do desejo nos nutre e impulsiona como aspecto positivo, mas pode ter um viés de vício e acomodação, afinal o prazer de facilmente saciar-se o desejo pode levar qualquer um ao comodismo.

É necessário coragem e sabedoria – guiados pela compaixão – para romper com este ciclo e utilizá-lo como mola propulsora para se atingir o segundo nível da Ágape. É por este e outros motivos que se necessita de mestres realizados para se aventurar pelos caminhos do Tantra.

No topo encontramos o ciclo de Ágape, a força cíclica da sabedoria divina que se por um lado nos nutre de conhecimento, sabedoria compassiva e mais e mais força, por outro pode-nos fazer refém do êxtase que se experimenta por estar diante do Amor mais elevado.

Mas como este ainda não está completo em nós, precisa ser exercido, não apenas conhecido, é preciso de clareza e desapego para se dar o próximo passo adiante: em direção ao Outro (primeiro em nós, depois ao nosso entorno) presente no ciclo Philia. É quando é necessário reconhecer que este conhecimento não é somente nosso e apenas dele compartilharemos quando exercendo-o na troca com o Outro.

No ciclo da Philia forja-se o amor combustível cotidiano que fará os sistema funcionar automaticamente, fluindo e fruindo harmoniosamente. A troca amorosa produz uma energia tamanha posto que a soma é maior que as partes que o excedente transborda, fertiliza e impulsiona os avanços de ambos naturalmente.

O problema é que a maioria de nós se contenta ou por medo ou por carência com o primeiro estágio e com medo de perder o pouco que tem, abre mão do tanto que lhe está a espera ao final do arco-íris que é a realização de seu pleno potencial.

Talvez por isto que no budismo se fale sobre o corpo de arco-íris como último estágio da realização por ter-se passado por todas as tempestades da vida e águas da emoção, alcançando o pote de ouro que é a mente iluminada. E o que é a mente iluminada se não a alma plena da razão do coração?

O bom é que a vida nos proporciona tais momentos e forças cíclicas de diversas formas: pelo Amor, quando conscientemente deixamos cada ciclo em espiral rumo ao próximo estágio aplicando ao Espaço de cada força o vértice do Tempo imbuídos de Amor, ou pela dor, quando nos empurra – mesmo contra nossa vontade – a nos defrontarmos com nosso caminho e destino: neste caso mais solitários, mais chuvosos e mais tristes porque com menos força.

Aja com Amor: equilibre a mandala de seu Ser através da abertura da beleza do Amor para receber a força de cada ciclo. Organize razão, intuição, sensação, sentimento (emoção) e abra espaço para o canal fluir e você ascender: deixe o Amor preencher aquilo que você conhece por ego e acha que é grande e sua única proteção – sem medo verás que podes ser muito maior e mais forte, liberto.

No Amor livre das armadilhas,

As armadilhas do Amor

Quando estamos no processo de ascese através da elevação de nosso padrão de Amor, do animalesco e instintivo impulso erótico ao divino e absoluto agápico, o próprio Amor nos coloca à prova: nos apresenta um par e contra-ponto erótico ao qual nos ligamos, que facilmente gera êxtase e que pode nos viciar em um processo que se finda em si, não se renova, tirando-nos de nosso secreto caminho evolutivo que justamente nos dá êxtase e troca ilimitada com o universo.

A chave é entender isto - o aparecimento do par erótico - como a Força Schopenhaueriana, a manipulação por parte dos genes, as tentações de Mara, e superar esta etapa de apego aos prazeres fáceis e táteis focando na evolução espiritual em busca da elevação dos padrões e vibrações.

Quando sentir que alcançou e consegue manter o padrão agápico, desapega-se também do êxtase supremo para aportar seguramente na philia, onde se lida com o Outro e consigo fraternamente e pode-se, inclusive, retomar aquele relacionamento que outrora era obstáculo - se ainda tiver e fizer sentido, será transmutado, evoluído.

Entender este processo e tornar-se soberano nele é criar meios hábeis - amorosos - para tornar obstáculos ferramentas de poder e conquista - o que se assemelha muito ao Tantra e suas práticas.

Na união das energias opostas e processo libertador do Amor,

sábado, 11 de abril de 2009

O fruto do amor é o mundo fenomênico

É o Amor o elemento que possibilita a união de corpos, sentimentos e razão, em suma, da manifestação do pleno potencial da coisa-em-si, da realidade onde tudo é uno, não havendo dissociação entre Tempo e espaço, ressaltando o paradoxo do pleno potencial da coisa-em-si em meio ao todo convergido.

No fenomeno do Amor,

sábado, 24 de janeiro de 2009

A mira do Amor

Schopenhauer dizia que 'o talento atinge um alvo que ninguém atinge; o gênio atinge um alvo que ninguém vê'.

O Amor conduz o talento à genialidade, a compaixão a inteligência à sabedoria.

No Amor, a fé da alma que nos faz transcender,

Amor e o eterno devir

Vejo o Amor como sendo o motivo e o acontecimento do devir nietzschiano - 'torna-te quem tu és'.

Apenas o Amor consegue revelar a plenitude de nosso Ser, o supra-humano, e nos transformar naquilo que somos e de onde, literalmente viemos: de um ato de Amor.

Partimos do Eros, do ato erótico, e penso que nossa ascese seja peregrinar e o unir ao amor Ágape, desembocando e unindo assim ao outro lado, o outro, a Philia.

O rio é sempre outro, somos sempre outros; panta rhei (tudo flui), como diria mestre Heráclito de Éfeso, mas não trata-se disto, trata-se de cruzar o turbilhão do rio das emoções e dos impulsos das paixões - as tais forças schopenhauerianas - e chegar a outra margem. O barco é o Amor Ágape.

No Amor quae panta rhei,

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O Amor e o fim do querer viver em Schopenhauer sob uma ótica budista

O ‘filósofo do amor’, Schopenhauer, versa sobre o tema e sua alcunha tanto em sua “Metafísica do amor”, quanto na obra-prima “O mundo como vontade e representação”; naquela retratando o amor Eros - uma vontade universal que a todos perpassa, guia e impulsiona, travestido de individuação egocêntrica, escrava iludida do querer viver, embalada superficialmente pela consciência -; nesta definindo as bases deste querer viver universal, retratando o amor como impulso sexual cego - garantia da perpetuação da vida -, bem como afirmando sua concepção do mundo como interdependência da vontade universal e da representação individual, por fim lançando as bases e dando contorno ao seu amor puro e último, a compaixão, o amor ágape, “divino, incondicional, com auto-sacrifício ativo, pela vontade e pelo pensamento” [1], que via de regra transmuta o Eu em Nós, tornando-nos uno, mas que em Schopenhauer leva ao fim da espécie pela negação do querer viver da vontade universal, mortificando a existência conscientemente – preceito majoritariamente cristão-católico de difícil compreensão para um budista maha-vajrayana e que será tema do desenrolar deste pensamento consolidado em texto.

O fato de não abordar o amor philia, fraterno, altruísta e assexuado, não chega a ser um problema, mas será abordado ao fim deste diálogo como um dos meios para potencializar a compreensão e o próprio uso da veia budista no pensamento ‘schopenhaueriano’, buscando interpretar de maneira mais fidedigna os preceitos tântricos do budismo, vajrayana em especial – talvez resida aqui a fonte de ‘equivocos’ na utilização do budismo como base para o apontamento do niilismo como salvação e redenção em Schopenhauer: aparentemente este se baseou mais no caminho Hinayana, chamado no budismo de ‘veículo pequeno/inferior/menor’ – por se ater à iluminação pessoal/individual - e que visa a libertação e o alcance do Nirvana através da negação e abstinência, notoriamente sendo um compromisso individual e auto-centrado, sem comprometimento direto com os demais seres; além de ter apreendido erroneamente o conceito-base budista de vacuidade como sendo equivalente ao nada niilista, por fim, comprometendo sua solução de negação do querer viver – talvez por não alcançar o divino do próprio ser humano a não ser pelo conceito das palavras e da filosofia. E o divino em nós fala do uno, da manutenção consciente da vida até a iluminação, do não-sofrer no seu caminho (samsara em sânscrito). E ao não se sofrer em seu caminho (samsara) atinge-se a iluminação ao se sair da roda de samsara e se girar a roda do dharma (sua Lei Natural, realidade). Lama Chimed Rizdin afirma que nirvana e samsara são a mesma coisa, projeções de nossa mente dualista.

Uma recomendação dos lamas e dos sutras é a de que pode-se chegar até a outra margem com o barco, mas para se alcançá-la de verdade é necessário abandonar o próprio barco, uma bela metáfora para o desapego, mas também para a própria limitação de Schopenhauer que, pelo que aparentam seus escritos e alguns traços biográficos em desalinho com sua própria filosofia, perdeu-se antes de percorrer o caminho óctuplo e apenas vislumbrou seus degraus, entendendo e repassando duas, das quatro nobres verdades corretamente e fraccionando a terceira, equivocando-se ou ignorando a quarta, uma vez que antes de encontrar a senda do caminho do meio, Buda vivenciou e desaconselhou os caminhos extremos, dentre os quais o ascetismo fora uma das extremidades e sua origem nobre e repleto de desejos e luxos a outra.

Schopenhauer “termina exaltando, em largas páginas, as grandes figuras dos santos cristãos em confusa mescla com os ascetas da Índia”, “o homem que se liberou do Princípio de Individuação, da individualidade fenomênica, e vê a natureza tal qual ela é, não admite mais o consolo da compaixão. Sua vontade se converte, já não se afirma a si mesma, nega sua própria essência da qual o fenômeno não é mais que um espelho. Já não se contenta em amar o próximo, senão que nasce nele um horror ante ao ser do qual é expressão seu próprio fenômeno, ante a vontade de viver, ante ao que é nuclear e essencial do mundo, que considera como um tormento. Renega desta maneira que se manifesta na forma corporal, e todos os seus atos se põe em contradição com ele. Cessa de querer coisa alguma e alimenta em seu coração a indiferença a tudo e por tudo” [2] .

Conjugando os pontos supracitados e os confrontando com o ensinamento budista do caminho óctuplo, bem como com os tantras vajrayanas, que ressaltam os obstáculos como vitais para a prática e não de forma negativa, vislumbra-se outra saída para a negação da vontade universal como cessar da espécie. Enquanto para Schopenhauer o humano é “sacerdote e vítima” [2], onde a salvação depende de sua anulação em vida e aniquilação total com a morte, no ‘grande caminho’ (maha-yana) e ‘caminho do diamante’ (vajrayana) ele se torna um Bodisatva, literalmente um ser de sabedoria (em sânscrito), soldado e protetor da iluminação, que labuta pela liberação de todos os seres renascendo sucessivamente para sensibilizar e esclarecer as pessoas, mostrar-lhes o caminho, sem o qual elas não compreenderão sua natureza.

A dimensão de sacrifício ascético em prol da liberação (do querer viver universal) denota-se extremamente cristão, não tanto carregado e introjetado pela culpa cristã, mas longe do entendimento budista da responsabilidade e compreensão através da sabedoria - para o filósofo o pensamento é a máscara superficial que dissimula a vontade, para o budismo a contemplação (pensar, sentir e intuir) é a via para alcançar a plenitude a partir dos preceitos da motivação pura e da atenção plena que conduzem ao despertar e o asseguram.

Retomando o entendimento ‘schopenhaueriano’ de que não basta cessar o sofrimento de um ser humano, posto que o sofrimento persistirá nos demais, é natural que se chegue à conclusão que apenas os preceitos maha- e vajrayana possam ser parelhos às intenções do autor, uma vez que versam sobre a liberação de todos os seres sencientes – o que engloba não apenas os seres humanos, mas toda a vida; para efeito de foco no estudo, nos ateremos aqui à causa humana, sob a qual também se debruçou Schopenhauer, sem entrar no mérito da identificação do sofrimento nos demais seres ou não, uma vez que este embate leva ao questionamento do princípio vital da filosofia, mas principalmente da solução proposta por Schopenhauer: se o sofrimento cessa com o fim da humanidade - o conhecimento do sofrimento -, posto que não há sofrimento no restante das manifestações da Vontade, ao admitirmos a existência do sofrimento nos demais reinos, levamos o pensamento schopenhaueriano à tolice do extinguir da única saída possível, a conscientização compassiva de nossa espécie e sua vida enraizada na motivação pura e florescida na atenção plena.

Contudo, enveredamos pela escrita do mestre de Danzig com o intuito de trilharmos paralelos e buscarmos convergência em prol do pleno entendimento do caminho de Buda e do engrandecimento daquele que levou o dharma para dentro da filosofia alemã, européia e ocidental e nos abriu assim campo para debatermos inclusive este assunto nestas poucas linhas.

Schopenhauer, tal qual o próprio budismo, é apontado como pessimista por leitores mais apressados. Isto se baseia na premissa budista – e adotada pelo autor como ponto-de-partida para sua filosofia e entendimento de mundo - de que a vida é sofrimento, uma das quatro nobres verdades budistas – a vida é sofrimento; a causa do sofrimento; a extinção da causa do sofrimento; a senda que leva à extinção do sofrimento. Se contemplarmos apenas a primeira nobre verdade, a de que a vida é sofrimento, logicamente afirmaremos que isto se trata de um pensamento e uma constatação pessimistas. Mas se as contemplarmos como um todo, as quatro nobres verdades são um caminho seguro, positivo e crescente para a ascese e o não-sofrimento.

Não entraremos aqui no mérito da dicotomia-base sofrimento-felicidade, posto que são conceitos e não alcançam a realidade última, apenas registraremos, como se faz necessário, que é melhor viver a felicidade que o sofrimento e que para efeito retórico do texto e evolucionista da espécie é muito mais inteligente e lógico se principiar pelo sofrimento para se passar à felicidade do que o contrário, primeiro por ser mais fidedigno à realidade da maioria, segundo por ser um caminho lógico, posto que quem se encontra em felicidade não deveria se preocupar em caminhar rumo ao sofrimento.

Para o autor a felicidade então é não-sofrimento, uma vez que se principia o viver cotidiano neste estado de sofrimento, que no budismo é entendido como enraizado na ignorância, o primeiro dos 12 elos da cadeia de originação interdependente e que culmina na morte. A verdadeira felicidade búdica, contudo, se encontra escondida sob os véus da ignorância dentro de cada ser e tem densidade em si, não apenas refutando aquilo que causa o sofrimento, sendo uma mera negação do mesmo, mas também afirmando as condições e meios para se estabelecer positiva e pró-ativamente o estado da felicidade.

Como alcançar o não-sofrer, a partir do entendimento de Schopenhauer, uma vez que a Vontade encara sempre a frustração - caso não consiga o objeto desejado - ou o tédio - caso consiga alcançar a sua meta. A resposta que emerge é a negação do querer viver, dessa Vontade, desejo-mor. É, portanto, vital se conhecer este querer viver, apoderar-se desta Vontade, deixar-se de ser ignorante quanto à nossa verdadeira realidade (dharma), forjando-se assim a motivação pura de nossa existência, solo fértil no qual se desenvolve o homem renascido como Bodisatva e que se moldará em definitivo através da plena atenção - temos a oportunidade de conscientemente confirmar a graça de nossa existência ou sucumbir cegamente à nossa própria ignorância.

É tênue o equilíbrio entre o entendimento e, principalmente, o controle do impulso sexual, da paixão – amor eros – e o desenvolvimento da compaixão humana-universal – amor ágape. O primeiro nos une à nossa carne, própria e do próximo, o segundo nos une ao todo, ao que é mais elevado, mas o que unirá ambos de natureza tão distinta e que aparentemente não tem interface de diálogo entre si?

Afastamo-nos do palco schopenhaueriano para a entrada em cena do conceito não abordado de philia – amor fraterno, assexuado, altruísta -, possível elo de ligação entre amores, e que no budismo pode ser representado pela sangha, comunidade que aplica na prática a religiosidade – o religare - em busca do aperfeiçoamento e elevação individual e coletiva. Philia, o caminho do meio do amor que confere a força da paixão de eros e a pureza do amor divino aos laços fraternos: vive-se conscientemente não por si, mas pelo outro através da tríade do amor baseado na philia, impulsionado pelo eros – que se eleva - e guiado pela ágape – que se dissemina. Assim fica fácil compreender a certeza de Virgílio – Omnia Vincit Amor -, que ‘o Amor tudo vence’.

Desta maneira consegue-se ultrapassar a vontade de viver e a vontade de morrer, ultrapassando-se o fenômeno e a própria ultrapassagem, chegando-se a fazer tudo com a consciência dhármica: cessa-se o sofrimento do apego e da ignorância que levam à morte e ao sofrimento, passa-se a manifestar as qualidades humanas superiores do Bodisatva, cuja consciência e manifestações atuam preservando e perseverando a vida, com foco na liberação de todos os seres em busca do cessar do sofrimento, sem conceituá-lo e condicioná-lo diretamente à vida no sentido lato senso – uma vez que no stricto senso a vida é sofrimento, como vimos anteriormente.

Há uma alternativa então que expande o entendimento de Schopenhauer e do viver, onde matar o homem através da negação do querer viver não sentencia o fim da espécie e sim afirma as bases para a ‘criação’ de bodisatvas, seres iluminados que se perpetuam para trabalhar pela iluminação dos seres de todos os reinos. Através da ‘morte’ do homem, de seu desapego e aceitação da impermanência dá-se real sentido ao seu caminho, cessa-se o sofrimento, não a vida.

Buda ensinou-nos 84.000 métodos para se alcançar a iluminação, aplicáveis de acordo com o perfil de cada praticante. Repousar tal prática no amor compassivo encurta o caminho sensivelmente. Caminho este que começa no reconhecimento das quatro nobres verdades e adentra o caminho óctuplo de Buda, que dissipa toda dúvida quanto ao sentido do renascimento consciente em prol dos demais seres sencientes.

Mas tudo isto pode também ser um pensamento criado a partir da vontade universal do querer viver, portanto sinta com o coração e intua com a alma, contemple o todo para encontrar a sua verdadeira Vontade, só sua. E de todos nós.

Com agradecimentos especiais à professora Marcia Amaral - do curso de pós-graduação em filosofia do Mosteiro de São Bento/RJ - que me introduziu ao pensamento schopenhaueriano e não apenas avaliou e validou, mas deu importantes diretrizes a este texto.

No Amor,

[1] Wikipedia
[2] Ética em Schopenhauer – Profa. Márcia Amaral
[3] O Mundo como Vontade e Representação
[4] Metafísica do Amor

domingo, 6 de julho de 2008

Amor - o caminho secreto da evolução


Deste esquema pode-se ter inúmeras indagações, apontamentos e encaminhamentos. Gostaria de ressaltar um par de coisas para deixar no ar umas e sacramentar outras.

Das demonstrações almejadas
  • Se evolução é expansão, partimos do Eros - interno e primitivo - para a Philia - externa e evoluída; C.Q.D.
  • Em todas as religiões que conheço o controle e correta canalização da libido é fator crucial para a elevação e evolução, também aqui a evolução do Eros para a Philia vai contra o fluxo do que chamei de Força Schopenhaueriana (em homenagem ao grande filósofo Arthur que identificou corretamente este 'drive' que nos 'manipula') e, portanto, contra a procriação desordenada (algo positivo tanto para o indivíduo, quanto para a sociedade), C.Q.D.

  • Compaixão infinita abarca tanto o Eu, quanto o outro e o Nós - comumente esquece-se no mínimo de um deles: o egoísta do outro, o altruísta de si, a maioria do coletivo que a tudo - não apenas aos humanos - abarca. A esfera representa aqui então o Eu, o outro em mim e a pluralidade da criação presente em nós, que quando amorosamente observados podem levar à harmonização interna, evidenciada e projetada diretamente para as ações exteriores. Esta atenção plena do indivíduo fortalecido - que se torna o observador - tendo em mente o círculo da compaixão e os elementos inerentes a ele possibilitam a manutenção da motivação pura do lema Altiora Semper Petens. Assim conseguimos abarcar através do círculo da compaixão todas as nossas possibilidades, as forças contrárias e o modelo de relação ao mundo exterior - a compreensão e o correto uso do círculo da compaixão pertence aos fortes e emancipados (em relação às suas forças contrárias internas e às forças externas, de outrem ou do meio); C.Q.D.

  • Santo Agostinho poderia encaixar sua ordenação da seguinte maneira: o Amor a si (Eros), o Amor ao Outro (Philia), o Amor à criação (Ágape) - o que resulta em uma interpretação dúbia de amor incondicional à tudo, à criação, o que por esse lado fecha com a teoria agostiniana, mas também pode levar à interpretação de que Deus é uma criação humana, o que de fato não se enquadra na visão do Santo Filósofo. Contudo, se entendermos que o que conhecemos do Infinito faz parte de nossa concepção finita, explica-se como Ágape pode ser nossa concepção do divino, a projeção divina sobre nós, sendo Deus em si o observador/círculo da compaixão, que nos confere os meios hábeis para nossa evolução: tanto a Força impulsiva (Eros), quanto a Força repulsiva (F.S.), o círculo/mandala no qual tudo se erige e a Luz da sabedoria - acessível com certo esforço, que é o ato de canalizar a libido para fins superiores, levando Eros a sair da relação de confronto com a Força Schopenhaueriana e alçar vôos mais elevados ao se relacionar com Ágape, transmutando Eros para Philia através do Amor Ágape, do caminho percorrido, da verdade descoberta, da vida vivida; C.Q.D.
  • Apenas no equilíbrio de cada uma das forças envolvidas é que se possibilita por um lado sublimar a Força Schopenhaueriana, por outro edificar tal pirâmide de maneira sustentável, sendo o objetivo final a recondução da Força Schopenhaueriana para Eros recanalizar e subverter novamente, até se pacificar tal energia contrária levando a uma fluidez e equilíbrio harmônico; C.Q.D.

Dos pressupostos

  • No sentido estrito somos desejo puro, primitivo, Eros, que veio através da Ágape evoluir para Philia, transmutando energia - Força e Luz - através da Sabedoria; no sentido amplo somos a conjunção destas 3 esferas (Eros, Ágape e Philia)

  • Externo, Interno e Secreto são terminologias budistas que ousei adotar livremente, pois me fazem bastante sentido neste contexto e auxiliam em uma convergência de visões entre ocidente e oriente

  • Motivação Pura e Atenção Plena são igualmente terminologias budistas ligadas diretamente à meditação que deve ser uma constante em nossas vidas e que se aplicam corretamente neste mosaico

  • Círculo da compaixão é a compreensão intelectual desse esforço (conatus) evolutivo que abarca tanto o entendimento da relação das forças, quanto a não-identificação e desapego aos fatores individuais, gerando o observador onipotente que consegue identificar as questões, mas não se envolver, possibilitando um auxílio útil caso necessário. Procurei mesclar aqui o conceito cristão de compaixão - o compadecer -, o de Baruch Spinoza - compaixão como a atitude de ser justo, honesto e útil com outros homens pelo ditame da Razão - na busca por ocidentalizar minha compreensão da compaixão budista que a meu ver é a justa medida das melhores partes de ambos os conceitos retrocitados.


  • Cada Ser tem seu círculo de compaixão e o Todo é formado por um mosaico coletivo Uno a partir destas esferas individuais, sendo um observador para cada Ser - o Eu Superior - e um Observador, o Nós Superior, D.E.U.S. - Domínio Equanime na União dos Seres.

  • Parto do pressuposto que Deus é Amor, Compaixão Infinita tal qual está na encíclica de Bento XVI, tal qual está na bíblia, tal qual é declamado pelos Sufis do Islã e de maneira similar por todas as grandes religiões do mundo, quer elas tenham Deus como sendo o criador, co-existente ao Universo, monoteístas ou politeístas; não me obrigo aqui, tampouco em minha vida pessoal a determinar isto. Nossa compreensão finita não alcança o infinito de Sua existência; vislumbramos a magnitude do infinito apenas através da vivência da fé. E se ele não existir, tanto faz eu me indagar ou não quanto a ele. Se Ele existir de maneira absoluta e criadora, sua grandeza e compaixão não o deixarão em absoluto se sentir ofendido com minhas indagações em uma busca sincera e amorosa por realizar em mim a imagem d´Ele. Ou simplesmente evoluir de animal-humano para humano-divino. Afinal, não fomos feitos à Sua imagem e semelhança? Não temos todos a essência iluminada, a centelha divina?

Amor, maior religare de todos, nosso caminho secreto para a iluminação/evolução.

No Amor, no caminho, na verdade e na vida,

domingo, 15 de junho de 2008

Amor universal viaja de cometa e vibra assim na Terra, como no Céu

Esse desenho animado australiano realizado por Nick Hilligoss, primeiro lugar em curta-metragens no Festival de Berlim 2008 e abaixo 'embedado' me fez relembrar algumas idéias e textos que escrevi sobre minha própria teoria criacionista, filosofia de vida e cosmologia.

Além de ser uma obra-prima da animação, prima por nos levar no mínimo a uma coceira mental e questionamento de tantas 'coincidência'.

Aproveito para falar um pouco sobre meus supra-citados pensamentos logo abaixo do vídeo e lembrar que Nelson Rodrigues já dizia: 'Deus está nas coincidências'.




Vamos então sem mais rodeios laçar as coincidências antes que nos escapem.

Em uma aula de cinema na PUC-Rio, no final do séculos passado - sim, estamos falando do final da década de '90 -, o Prof. Pedro Camargo - grande mestre e amigo - interrompeu a análise de um filme com o anacoluto sobre a ' coincidência' no formato de Cometas e Planetas com os de espermatozóides e óvulos; isto unido ao fato dos astrônomos afirmarem se tratar dos cometas como os semeadores de vida do Universo, voilá.

Molda-se a partir daí toda a minha cosmologia e maneira de interpretar meu mundo, sempre buscando correlatos na natureza, analogias e paralelismos entre as distintas esferas, macro e micro, fatos que se confirmem no pluralismo, que para mim constituem assim o verdadeiro uno.

'Engraçado' o bobo-da-corte viajar/se transformar num cometa, não?

Outros correlatos instigantes usados na animação - alguns também trazidos por experiência própria - que nos levam a pensar e questionar as diferenças existentes entre as diversas linhas e versões para o Todo e para tudo:

  • cometa-planeta X espermatozóide-óvulo
  • dimensão humana - aqui abordei apenas a questão física, sem enveredar pela questão do livre arbítrio e karma, como exemplos ligados ao ato humano de vibrar e construir sua própria realidade
  • uso da metáfora de Adão e Eva,
  • uso da metáfora do pecado original - que para mim não foi a ingestão da maça vermelha ou o ganho do conhecimento, mas sim a ingestão de carne animal - representados pelo vermelho-sangue da maça, fruta utilizada na cor verde nos Vedas para falar do vegetariano e libertador do sofrimento animal Buda -, primo-irmãos a quem deveriamos cuidar, bem como nossa natureza preservar,
  • a relação necessária e urgente entre Trindade e Trimurti, evidenciada no post sobre a eternidade do Amor

Não são todos relatos moldados a partir da língua e cultura de determinado povo, que na verdade se apropria da energia arquetípica e a aprisiona em palavras e junções conceituais para facilitar-lhes a compreensão? Com esta facilidade alcança-se mais pessoas, mas perde-se a unidade do mistério, sua riqueza que a tudo abarca e possibilita e gera-se um mesquinha disputa pelo versão mais valorosa. É como se apropriassemos de um pote de ouro e competissemos para ver quem tem o maior pote, quando nos esquecemos da fonte inesgotável que é o Rio de Ouro, o Rio da Vida.

Isto tudo somente me reforça o conceito budista do não-conceito supra-dualista, supra-conceitual e até o próprio Deus intelectual de Spinoza e a Vontade que tudo perpassa, de Schopenhauer: obviamente que apenas o fato de darmos um nome e significado ao não-conceito, à vacuidade, à Deus, à Vontade já aprisionam entes infinitos a partir da finitude da compreensão humana, que busca contudo se expandir para se estabelecer na plena consciência.

Eis onde reside o mistério do amor, divino mistério da vida. Por mais que tentemos entendê-lo, é necessário vivenciá-lo: à vacuidade, à Deus, ao mistério, ao Amor - aos inúmeros nomes dados àquilo que nos acende e ascende, ilumina e guia.

Reparem em nossa constituição física: de braços abertos e carecas ou até mesmo de braços juntos e cabeludos, assemelhamo-nos a antenas, captamos energias, filtramo-nas e através de nossos pensamentos e sons vibramos e construimos realidade, como muito bem evidenciou o filme 'Quem somos nós'.

Se juntarmos as figuras dos dois parágrafos acima ao fato de que estamos na superfície da Terra vibrando [de maneira desordenada - tanto que estamos acelerando nosso tempo e vivendo cada vez mais uma correria sem fim] e olharmos com atenção à superfície de um óvulo, veremos que ele está repleto de 'anteninhas' que vibram atraindo e/ou repulsando os espermatozóides, escolhendo aquele que irá fecundá-lo (o óvulo). Não seriamos nós estas anteninhas terrestres?

Pra coroar as coincidências: 'assim na Terra, como no Céu' - o macro está representado no micro. As diversas dimensões e esferas - da matéria para o metafísico; do micro pro macro - são acessadas pela vibração, tal qual a molécula da água, quando gelo, vibra menos e vai vibrando cada vez mais até passar ao estado gasoso.

O amor é esta vibração que cria, dá forma e transforma, vivifica, anima, impulsiona. O amor é este supra-conceito não-dualista, que não distingüe um-e-outro, mas apenas organiza os fatores para gerar maior valor - tal qual uma mandala.

É assim que necessitamos vibrar para atrair boa energia universal para fecundar positivamente nossa Terra - nem que seja com nossas próprias idéias ressonando diretamente aqui ou ecoando do céu; quer seja a salvação vinda do universo ou do nosso interior, não importa, é tudo uma coisa só, interdependente e não-dual.

No amor, maior e único conceito sustentável, mahamantra universal supra-lingüístico